Em Leiria, um mega-aviário da Lusiaves foi aprovado contra a vontade (e a saúde) da população. Porquê?

MEGA-AVIÁRIO CONTRA A VONTADE DA POPULAÇÃO

Leiria prepara-se para acolher uma das maiores explorações avícolas da Europa. A autorização para este projeto do grupo Lusiaves foi concedida apesar da forte oposição da população local, revelando um processo de avaliação ambiental que levanta graves suspeitas de manipulação política e económica.

Ao chegar a Monte Redondo, por entre uma longa estrada acompanhada de pinheiros e azinheiras, é impossível não ser apanhado de surpresa com uma mini réplica da Torre Eiffel que atinge os 11 metros de altura. Mas esta está longe de ser a maior surpresa nesta pequena e sossegada zona de Leiria. Basta seguirmos em frente uns quilómetros para encontrarmos uma fábrica da Racentro, empresa do grupo Lusiaves, situada ao lado de onde será construído um dos maiores aviários da Europa. 

Este projeto consiste na expansão de um aviário que já existe no local, também ele do grupo Lusiaves, estimando-se uma produção anual de mais de 4.5 milhões de frangos, cerca de 19 vezes a produção atual. Para uma freguesia pequena como a de Monte Redondo, a dimensão deste projeto criou na população grandes receios sobre o seu impacto na saúde pública, ambiente e qualidade de vida. 

Neste sentido, durante o processo de consulta pública, mais de 500 pessoas manifestaram-se contra o projeto na plataforma Participa.pt e quase 2500 assinaram uma petição lançada pela Frente Unida, associação que se formou com moradores das freguesias afetadas. 

Para além disso, a União de freguesias de Monte Redondo e Carreira, a de Coimbrão, e o município de Leiria emitiram pareceres desfavoráveis ao projeto, sublinhando os impactos cumulativos numa zona já saturada de explorações agropecuárias. 

As preocupações com a saúde

Uma questão que preocupa a população é o consumo de água. Pelos cálculos realizados pela associação Frente Unida, “só o aviário vai gastar mais água do que toda a população junta”, para além do risco que existe de contaminação das águas. Isto é especialmente alarmante numa zona que já é afetada regularmente por falta de água. 

No entanto, é a emissão de amoníaco que mais preocupa a população. O nariz humano começa a detetar o amoníaco – o cheiro forte a galinheiro – a partir das 5 ppm (partes por milhão), momento em que já está a ser prejudicial à saúde humana. 

Um morador partilha que “em vários dias do mês, temos aqui cheiros que são muito agressivos e desagradáveis”, com a concentração de amoníaco a variar entre as 5 e as 20 ppm. Se o mega-aviário da Lusiaves avançar, as áreas próximas poderão alcançar as 100 ppm de amoníaco, tornando a população ainda mais vulnerável às doenças respiratórias e cardiovasculares causadas por este químico. 

Assim, levanta-se a questão: Como é possível que um projeto com estes potenciais efeitos negativos na saúde da população tenha sido aprovado apesar da forte contestação local? 

(Cheira a) um processo de avaliação ambiental duvidoso

Qualquer projeto público ou privado que possa produzir efeitos significativos no ambiente, é obrigatoriamente sujeito a uma avaliação de impacte ambiental. Neste processo, é nomeada uma comissão de avaliação, que se encarrega não só por avaliar a dimensão destes efeitos ambientais, mas também “garantir a participação pública e a consulta dos interessados na formação de decisões que lhes digam respeito, privilegiando o diálogo e o consenso”, algo que a população não sente que aconteceu. 

O processo de avaliação ambiental deste projeto, atribuído à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), foi alvo de escrutínio por parte da associação Frente Unida, que apontou “falhas graves” e “dúvidas quanto à sua independência técnica e imparcialidade”.

Entre as falhas graves apontadas pela Frente Unida, destaca-se a falta de qualidade do estudo de impacto ambiental (EIA) apresentado, afirmando que este incluía “erros básicos de copy-paste” e  “dados que nem tinham a ver com criação de frangos”. Segundo os cálculos e estudos que a associação apresentou, o EIA subestimou gravemente os impactos que o mega-aviário poderia ter na população. 

“O pior de tudo isto”, adiciona a Frente Unida, “foi descobrir que os autores do EIA trabalham ou trabalharam para a Lusiaves. Não eram independentes”, tal como requerem as normas legais nacionais e europeias. Na sua perspetiva, isto “levanta dúvidas sobre a ausência de conflito de interesses e imparcialidade do estudo”. 

As provas deste conflito de interesses, bem como os links das referências científicas do parecer técnico da Frente Unida, foram removidas do parecer final da CCDRC, levando a associação a sentir-se indignada pelo que considera uma “clara tentativa de manipulação” da informação.

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CCDRC, PSD e Lusiaves: Um triângulo de manipulação política e económica?

Se há algo que se destaca ao entrevistar os moradores de Monte Redondo, é o facto de quase todos terem pedido anonimato. Só após se desligarem as câmaras e os gravadores, é que partilham, ainda com receio, as suas suspeitas relativamente à manipulação política e económica que acreditam estar por detrás da aprovação deste projeto. 

Os primeiros indícios de influência política surgem nas medidas compensatórias apresentadas pela CCDRC para mitigar os impactos da expansão do aviário. Estas medidas – a requalificação da lagoa da Ervedeira e das salinas da Junqueira – surgem sem qualquer justificação e coincidem com propostas do governo de oposição de Leiria (PSD), que esteve, desde sempre, a favor deste projeto da Lusiaves. 

As suspeitas de influência política devem-se ao facto de três das cinco pessoas na presidência da CCDRC terem ligações diretas ao PSD, incluíndo a atual presidente, Isabel Damasceno, que foi presidente da Câmara Municipal de Leiria pelo PSD durante 11 anos. 

 
 

 

Estas ligações da CCDR com o PSD são relevantes uma vez que o maior financiador da campanha política de 2021 deste partido foi Avelino da Mota Francisco Gaspar, o dono da Lusiaves. Assim, levantam-se suspeitas de que Avelino Gaspar possa ter influenciado a decisão da CCDRC em aprovar o mega-aviário.

Para reforçar estas suspeitas, descobriu-se que, em junho deste ano, dois meses após o projeto ter sido aprovado, o Grupo Lusiaves fez uma doação de mais de 200 mil euros à Unidade Local de Saúde de Leiria. O administrador hospitalar desta unidade – Manuel José Santos Carvalho – já foi deputado municipal pelo PSD. 

Esta informação por si só poderia ser irrelevante, não fosse o facto desta unidade de saúde ter sido nomeada pela CCDRC para pertencer à comissão de avaliação ambiental do projeto, tendo ficado responsável por avaliar os impactos da expansão do aviário na saúde humana.

Como é possível que a população local confie numa entidade que afirma que a expansão do aviário da Lusiaves terá efeitos “pouco significativos” na sua saúde, quando essa entidade recebe uma doação de mais de 200 mil euros do próprio dono da Lusiaves?

“Contra o lucro privado à custa do nosso futuro”

A população manifesta a sua falta de confiança neste processo, e exige que a sua voz seja ouvida. “Exigimos que a saúde, o ambiente e a segurança sejam prioridade, e não os interesses e a otimização de lucros de uma empresa privada”, dizem os membros da associação Frente Unida. 

Por isso, no final de julho de 2025, avançaram com uma solicitação formal de revisão e suspensão da aprovação do projeto, bem como de uma auditoria externa independente para se avaliarem corretamente os impactos da expansão do aviário no ambiente e na saúde da população. 

A população local está determinada em não deixar que este projeto avance, e prometem fazer tudo ao seu alcance para reverter a decisão da sua aprovação. “Este projeto põe em risco a saúde dos nossos filhos, o ar que respiramos, a água que bebemos. Se não reagirmos agora, vamos deixar uma herança de poluição e doenças para as próximas gerações.” 

 
 

 

 

as consequências para os animais

A aprovação deste mega-aviário levanta também sérias preocupações no que toca aos direitos dos animais. Em 2025, a LUSIAVES foi denunciada pela Frente Animal por práticas de crueldade animal em vários dos seus aviários, tendo perdido o certificado welfair de bem-estar animal, como consequência. Se estas práticas são comuns em aviários de escala mais pequena, o que se pode esperar que aconteça aos animais se este mega-aviário for aprovado?

Precisamos de travar a expansão deste aviário. Pelo ambiente, pela saúde das pessoas, pelos animais!

 
 

 

 

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