Mãe e ativista, atualmente exerce funções de coordenação técnica de projetos nas áreas da juventude e da saúde.
Acredita que todos temos um papel importante na construção de um mundo mais livre, justo e consciente, onde a empatia é essencial para garantir o bem-estar de todos os seres, seja através da educação, da arte, da ciência, da política ou do ativismo.
As crianças desenvolvem uma conexão natural com outros seres e espécies animais. Somos nós, adultos, que muitas vezes contribuímos para minimizar a nobreza e genuinidade dessa conexão, implantando medos e receios nas vivências dos mais novos, adultos sustentados na sua própria desconexão e desconhecimento sobre outras espécies. O desconhecimento gera medo e o medo gera insegurança e segregação, ao contrário do conhecimento, que gera entendimento, empatia e respeito. É assim, com pessoas, é assim com animais. Nesse desconhecimento, projetam-se experiências pessoais nos mais jovens, perpetuando ciclos de aprendizagem que podem afastar as crianças da sua natureza humana empática.
Quando culturalmente ou através da educação, contamos histórias que adjetivam negativamente os animais, transmitindo histórias do “lobo mau”, ou quando ensinamos músicas infantis como “atirei o pau ao gato”, estamos, através da nossa condição de adultos, educadores e modelos de referência, a perpetuar irresponsável e acriticamente, uma narrativa de medo e desrespeito pela vida dos animais, que impacta na forma como os vemos e tratamos.
A ausência de empatia dos adultos e da sociedade, alimentada por falta de legislação e judicialização eficientes, são o solo fértil para casos tão graves como o do cão Orelha, que espelha realidades diárias de tortura e falta de limites educativos, sociais e legais.
Neste mundo de rápida mudança, as redes sociais e as plataformas digitais ocupam muito do tempo dos mais jovens (e menos jovens também), mostrando o seu impacto potencialmente severo na modelação de muitos dos comportamentos, nomeadamente quando alienam as pessoas da vida real, e assentam a sua existência em conteúdos de violência em que prevalece o entretenimento sem verdadeira regulação e fiscalização. Nestes cenários, criam-se as condições para que o foco passe a assentar nos prémios virtuais, na visibilidade e reforço dos likes, na validação por parte de grupos que impõe os seus interesses, mas que se desconhecem na vida real, aliados a ganhos económicos que se sobrepõe de forma bárbara à vida de outras pessoas e animais.
A correlação entre o tratamento dado aos animais e a violência ou comportamento contra outros seres humanos, é amplamente documentada pela criminologia, pela psicologia e outras ciências sociais. A literatura cientifica demonstra que a crueldade contra animais é frequentemente um indicador de comportamentos relacionados com a violência doméstica, o abuso infantil e outras formas de comportamento antissocial.
Em 2016, o FBI (Federal Bureau of Investigation) incluiu os maus-tratos a animais no seu banco de dados de crimes como “crimes contra a sociedade”, reconhecendo a sua conexão com outros crimes violentos. A teoria conhecida como “Violence Graduation Hypothesis” (Teoria de Graduação da Violência), indica que os agressores frequentemente começam por ferir animais antes de evoluírem para crimes contra humanos. Também a teoria do “Elo Ignorado” indica haver maior risco de crianças se tornarem agressoras quando expostas a abuso de animais ou em situações em que tenham cometido atos de crueldade em tenra idade, demonstrando o impacto real do ciclo intergeracional de violência.
A revisão de diversos estudos confirma que a crueldade recorrente a animais na infância/adolescência é um preditor muito significativo de violência interpessoal na vida adulta. O tratamento dos animais não é, pois, um ato isolado, mas sempre um reflexo da empatia, do controle de impulsos, da permissividade das leis, da educação e da propensão à violência de alguns indivíduos, devendo ser encarado seriamente enquanto preditor de risco de violência humana.
Num momento tão crítico da nossa história coletiva, a empatia deve ser, tem de ser, um desígnio político, um compromisso de desenvolvimento social e humano, um compromisso educativo principalmente quando os interesses económicos ou ideológicos de muitos, assentam numa visão do mundo segregador, ausente de qualquer sentido de respeito e compaixão.
Empatia pode ser descrita como a capacidade de se colocar no lugar de outro ser vivo, de compreender o que sente esse ser vivo, e ter a capacidade de ajudar perante o seu sofrimento. É compreender sem julgar, criando uma conexão afetiva e com ela, agir para ajudar. é por isso, uma das competências mais importantes para o desenvolvimento social e humano, porque derruba barreiras, combate o ódio e a discriminação, promove o altruismo em vez do egoísmo.
Qualquer pessoa que tenha convivido com animais, reconhece as suas personalidades únicas, e sabe que eles são capazes de fazerem escolhas, de se conectarem connosco e com outras espécies, de sentirem dor, frio, medo e fome, mas também alegria, confiança, afetuosidade e segurança. A própria evidência científica revela, através da Declaração de Cambridge sobre a Consciência, assinada em 2012, na Universidade de Cambridge, que animais não humanos têm substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos dos estados de consciência, juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais, que evidenciam que os seres humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas, incluindo os polvos, também possuem esses substratos neurológicos. Esta Declaração científica foi validada e assinada por um grupo internacional de especialistas das áreas de neurociência cognitiva, neurofarmacologia, neurofisiologia, neuroanatomia e neurociência computacional.
Perante todos estes cenários, é preciso garantir que ao longo de todo o percurso educativo e social das crianças e jovens, particularmente nas faixas etárias mais precoces, o país está comprometido e decidido a educar para a empatia, com todos, pessoas e animais, gerando cidadãos mais conscientes, empáticas, responsáveis, críticos e ativos na defesa dos/as mais vulneráveis. Enquanto educadores, políticos ou sociedade civil, precisamos rever os conteúdos e práticas educativas que têm atravessado gerações, adequando-os aos propósitos de sociedades e culturas do século XXI, ao conhecimento científico atual e ao direito pelo respeito e dignidade de todas as formas de vida.
Alguns países já compreenderam a importância de educarmos a sociedade para a empatia e para o respeito por todos os seres vivos. A Dinamarca tem-se destacado na implementação formal de educação para a empatia, tendo-a incluído no currículo escolar obrigatório desde 1993. Neste país, crianças dos 6 aos 16 anos participam semanalmente na “Klassens tid” – “A Hora da Empatia”, um espaço dedicado ao debate de problemas, diálogo de sentimentos e conflitos, que inclui o respeito pelos animais e a convivência saudável entre todos. A empatia é valorizada ao mesmo nível que outras disciplinas, como a matemática ou literatura. Também em países como a Finlândia, Noruega, Suécia, França e Reino Unido, é dado um foco essencial ao bem-estar sócio emocional, desenvolvendo “aulas de empatia” ou integrando esta vertente no currículo escolar, promovendo o respeito, a autoestima, bondade, respeito e bem-estar animal em crianças e adolescentes. Estas abordagens de educação visam formar cidadãos mais conscientes e reduzir a violência contra todos os seres.
Outros países, encontram-se a definir alterações legislativas fundamentais e promissoras de um mundo mais justo e ético, particularmente através da aprovação de uma Lei de Empatia, como é o recente caso da Colômbia. Não faltam bons exemplos de governos que já entenderam a necessidade de promover um princípio tão essencial como a empatia e respeito por todos os seres e pela natureza, reforçando a consolidação de uma visão mais humanitária e não violenta em todos os contextos.
Não há dúvida de que precisamos de caminhar urgentemente para um mundo sustentado na educação para a empatia, no desenvolvimento de políticas que fomentem o respeito e conexão com a natureza, no desenvolvimento de uma visão da ciência que saia do seu quadro de leitura profundamente antropocêntrico, para integrar verdadeiramente um conhecimento ecocêntrico e uma visão humanista da sociedade.
Este deve ser o desafio político, educativo e económico também em Portugal.
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