A Frente Animal classifica a suspensão dos certificados FILPORC como uma manobra de gestão de danos para proteger a reputação do setor contra novas denúncias.
A organização não governamental Frente Animal coloca em causa as recentes declarações da FILPORC e da Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores (FPAS), que quer convencer os consumidores que os maus-tratos e condições insalubres na suinicultura Quinta da Granja (Euroeste – ValGrupo), divulgados no programa Prova dos Factos da RTP, são um mero “caso isolado” ou que não representam o sector.
Logo após a divulgação destas imagens, a Organização Interprofissional da Fileira da Carne de Porco (Filporc) suspendeu a certificação de bem-estar animal de todas as empresas, a nível nacional, alegando que as tempestades tornaram inviável a sua manutenção e que são necessárias novas visitas de organismos auditores. E a empresa proprietária da Quinta da Granja, a Euroeste, alegou que a exploração em causa sofreu “danos significativos” com a tempestade Kristin, assim procurando justificar as más condições encontradas.
Provas diversas desmentem a tese das “tempestades”. Ao contrário do alegado pela FILPORC, as provas fotográficas e de vídeo recolhidas pela investigação não são fruto de intempéries recentes. A maioria das gravações divulgadas pela Prova dos Factos foi realizada entre os dias 18 e 21 de janeiro de 2026, período em que as instalações da Quinta da Granja já apresentavam danos estruturais profundos, acumulação extrema de dejetos e graves falhas sanitárias.
Note-se que a época de tempestades (Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo, entre outras) apenas atingiu Portugal a partir de 22 de janeiro, prolongando-se até 8 de fevereiro. De acordo com o porta-voz da Frente Animal, Nuno Alvim, “é, portanto, enganador tentar imputar aos fenómenos climatéricos uma negligência que é, na verdade, sistémica e anterior aos fenómenos meteorológicos”.
A falácia da “forte regulamentação”
A Frente Animal questiona: se o setor é, como afirma David Neves, presidente da FPAS, “altamente regulado e fiscalizado”, como é admissível que uma exploração pertencente a um dos maiores grupos económicos do setor de produção de carne de porco (VALGRUPO) apresente este cenário de canibalismo e cadáveres em decomposição? “Onde estava a “forte regulamentação” e a fiscalização da DGAV enquanto estes animais sofriam sem assistência?” – questiona Nuno Alvim, presidente da associação. O que este caso demonstra não é o rigor do sector, mas sim a completa falência dos mecanismos de controlo oficial.
Não é um caso isolado
Este cenário não representa uma exceção. Já em 2025 chegaram à atenção da ONG Frente Animal imagens de outras unidades suinícolas na região centro com graves problemas sanitários e de bem-estar animal, através de uma denúncia anónima de um grupo de investigadores internacionais.
Em algumas dessas filmagens é possível observar suínos em sofrimento extremo, várias ratazanas dentro dos pavilhões e até gatos silvestres a alimentar-se de animais em decomposição, no exterior.
A tentativa da indústria de isolar este escândalo ignora um histórico documentado de incumprimentos que a ONG Frente Animal tem vindo a denunciar.
Suspensão de certificados: Gestão de danos ou admissão de culpa?
Para a Frente Animal, a suspensão apressada da certificação FILPORC para as empresas afetadas é uma manobra de gestão de danos reputacionais.
“Estamos perante uma tentativa desesperada de ‘fugir com o rabo entre as pernas’ para evitar que novas imagens venham a público e destruam por completo a confiança dos consumidores nos selos de bem-estar animal”, afirma Nuno Alvim, porta-voz da Frente Animal.
“Ao suspenderem os certificados a nível nacional, a FILPORC e a FPAS estão, implicitamente, a admitir que o problema é transversal e que, se as auditorias forem sérias, infrações graves dos direitos animais serão encontradas em muitas outras produções”.
A Frente Animal reitera o seu pedido de intervenção urgente das autoridades e a revogação definitiva, e não apenas suspensão temporária, das licenças e selos de bem-estar de empresas que estejam a lucrar com o sofrimento animal sistémico. Até ao momento, a organização já registou mais de 1.700 denúncias feitas por consumidores às autoridades.
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