Uma indústria que abate 8000 frangos por hora trata os seus trabalhadores praticamente da mesma forma: como máquinas descartáveis. Turnos de 14 horas, ameaças constantes, pausas negadas para urinar, contratos falsificados — tudo tolerado em silêncio porque “uma pessoa precisa do emprego”.
Os dias de Joel e Tiago*, dois jovens imigrantes em Portugal, começam cedo. De segunda a sexta-feira, o despertador toca às 3 horas da manhã para que consigam chegar ao local de trabalho antes das 4h30, hora em que começam a trabalhar. Quanto à hora de saída, essa não é certa. «Podemos sair às 6 da tarde», diz Joel, «nunca sabemos a que horas vamos sair.»
No centro de abate onde trabalham, na zona de Viseu, os horários excessivos são uma realidade diária. Durante o dia de trabalho, que pode durar mais de 14 horas, os trabalhadores têm direito a apenas 15 minutos de intervalo para o pequeno almoço, e 30 minutos para o almoço. «Já vi pessoas que tiveram congestão no trabalho por nos pressionarem a comer depressa», partilha Tiago.
Estes ritmos excessivos estão inseridos numa indústria que se caracteriza por velocidade e eficiência. Em Portugal, os centros de abate de aves relatam abater cerca de 6000 a 8000 frangos por hora, ou seja, 100 a 133 frangos por minuto. O que os centros de abate não relatam é a pressão e o desgaste físico e psicológico das pessoas que realizam este trabalho.
Joel conta que, no centro onde trabalha, os gritos e as ameaças são constantes. Se estiverem a trabalhar a um «ritmo de trabalho normal», os supervisores gritam «acelera, acelera, mexe as mãos, car*lho.» Muitas vezes, até os pedidos para urinar são negados. «Eles querem que uma pessoa seja uma máquina», acrescenta, «não nos veem como seres humanos.»
Esta pressão física e psicológica sobre os trabalhadores não acontece apenas na linha de abate. Muito antes dos frangos chegarem ao matadouro, é preciso criá-los para que alcancem o tamanho e o peso desejado.
Alice, uma ex-trabalhadora brasileira de uma quinta de produção de frangos em Leiria, conta-nos que no primeiro dia de trabalho achou «que ia desmaiar», porque trabalhou «sem pausas, sem comer e sem beber, das 7 da manhã até às 14h», sendo que o dia de trabalho terminava apenas às 17 horas.
Alice foi contratada através de uma agência de emprego para realizar a limpeza dos pavilhões. Na realidade, acabou por ser forçada a realizar trabalho de quinta, mas sentia que não podia reclamar por ter medo do “engenheiro”. «Os chefes eram chamados de “engenheiro”, cada quinta tem o seu», diz Alice, explicando que estes são os responsáveis por delegar as tarefas nas quintas. «Todos tinham medo do tal engenheiro» e «escondiam-se quando o viam na quinta», partilha.
Em fevereiro de 2025, uma investigação jornalística da RTP revelou práticas semelhantes de pressão psicológica sobre os trabalhadores da indústria do frango, incluindo relatos de pessoas forçadas a matar frangos à paulada contra a sua vontade. Segundo a reportagem, alguns trabalhadores chegaram mesmo a ser ameaçados de despedimento caso se recusassem a realizar essas tarefas.
Alice admite ter passado por uma situação semelhante. Essa pressão psicológica
constante, aliada à intensidade «desumana» do trabalho, tornaram este trabalho muito desgastante para si. «Era muito difícil», partilha, mas «eu precisava de emprego porque vim com a minha família, não podia reclamar.»
Não aconteceu apenas com Alice a realidade do trabalho não corresponder ao descrito no contrato. «As informações estão completamente distorcidas», diz Joel enquanto aponta com frustração para o contrato de trabalho que assinou.
Lá, encontra-se descrito que o seu horário é das 6 às 15 horas, de segunda a sexta-feira, com pausa de uma hora para almoço. Na realidade, Joel e Tiago entram sempre às 4h30, nunca trabalharam menos de 10 horas, e têm apenas 45 minutos de descanso. Muitas vezes, são obrigados a trabalhar aos fins-de-semana e feriados, e já foram ameaçados de despedimento por quererem recusar. «Nós aguentamos isso tudo só por causa da necessidade», desabafa Joel.
Segundo os artigos 227º e 228º do Código de Trabalho, só podem ser exigidas horas extra aos funcionários em situações muito específicas, como quando existe um acréscimo inesperado de trabalho que não justifique a contratação de outro trabalhador, e apenas até a um máximo de 2 horas num dia de trabalho normal. A violação destes termos, como descrito nos respetivos artigos, «constitui uma contra-ordenação muito grave».
«Eles aproveitam-se muito das pessoas não saberem [os seus direitos]», diz Joel,acrescentando que os abusos laborais no seu local de trabalho são uma realidade transversal a trabalhadores imigrantes e portugueses.
Helena, uma ex-trabalhadora portuguesa de um centro de abate da Lusiaves, sentia que o trabalho «era um bocado escravatura», mas que «uma pessoa acaba por se calar porque precisa do trabalho».
Embora os abusos laborais não se limitem aos trabalhadores imigrantes, existe um conjunto de fatores estruturais que colocam estes trabalhadores numa posição de maior vulnerabilidade no setor alimentar.
Segundo Marcos Rebocho, coordenador do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Indústria Alimentar (STIAC), as «barreiras linguísticas, o desconhecimento da legislação laboral, o isolamento social» e a dificuldade em compreender contratos e horários contribuem para que muitos aceitem tarefas e condições que não seriam exigidas a outros
trabalhadores.
Marcos acrescenta que «para muitos trabalhadores imigrantes, o emprego é também determinante para a regularização da sua situação no país, o que reforça o poder do empregador e aprofunda o desequilíbrio na relação laboral, dificultando a denúncia de abusos e criando um ambiente propício à exploração.»
«Importa deixar claro que a imigração não é o problema», salienta Marcos. «O problema é um modelo que tolera a violação sistemática de direitos no setor alimentar, colocando pressão sobre os trabalhadores mais vulneráveis».
A produção de frango é hoje um dos setores mais intensivos do sistema alimentar em Portugal. Segundo o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), a produção de frango tem aumentado significativamente desde o início deste século, representando hoje cerca de 80% da carne de aves produzida no país. Milhões de frangos são criados, transportados e abatidos todos os anos para consumo humano, num modelo que privilegia a eficiência acima do bem-estar animal e humano.
Nesta escala industrial, as práticas que tornam possível essa eficiência, criam também um ambiente onde a violência é normalizada. «Muitas vezes vimos os frangos a morrer», contam Joel e Tiago, «às vezes morrem na tua mão». Quando pergunto como é que se sentiam quando isso acontecia, começam-se a rir. Mas os risos dão rapidamente lugar a um silêncio pesado. «Por acaso era muito duro», admitem.
Com o tempo, o impacto emocional esbate-se. «Uma pessoa vai perdendo o medo», dizem. O choque inicial dá lugar à habituação. Numa indústria onde a rapidez e a desconexão emocional são essenciais, não há espaço para emoções complicadas, não há espaço para lidar com o sofrimento, nem dos animais, nem das pessoas que os matam por nós.
Acerca dos trabalhadores imigrantes e portugueses, Marcos dizia que «sempre que se aceita a exploração de uns, abre-se caminho à degradação generalizada das condições de trabalho» de todos. Assim, talvez não surpreenda que, numa indústria onde se normaliza a exploração e o sofrimento animal, se ignore igualmente a exploração humana.
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